As dimensões da comunicação | Comunicar para Mudar

As dimensões da comunicação

Texto adaptado da dissertação de Mestrado “A Centralidade da Comunicação na Socialização de Jovens”, de Rodrigo Ratier.

Entendemos que a comunicação é um processo que pode se desenvolver em três modalidades distintas:

– intrapessoal (quando emissor e receptor são a mesma pessoa)

– interpessoal e grupal (quando há um ou mais emissores e receptores, ainda assim em número reduzido)

– midiática (um emissor, muitos receptores)

A distinção nos parece útil porque quem já participou de um curso de educação para os meios ou de teoria da comunicação pode sair das aulas com a impressão de que a comunicação foi algo que apareceu muito tardiamente na história da humanidade, apenas no início do século passado. A maioria desses cursos refere-se apenas à comunicação que originalmente foi chamada de comunicação de massa (Lima, 2001), como se o que veio antes da aparição do rádio, da TV, do cinema, da imprensa – o conjunto dos meios de comunicação ou mídia, para simplificar – não importasse. Evidente que o uso de tecnologias específicas e o surgimento das instituições midiáticas modificou o campo da comunicação, mas não alterou a essência do ato comunicativo: um processo social básico e constitutivo da natureza humana. Para Paulo Freire (1983, 1987), o homem comunica-se por imperativo ontológico: sabe-se inacabado e precisa da comunicação para humanizar-se. A pronúncia do mundo é que dá sentido à existência. Todos nós somos “mídias humanas” (Penteado, 2002), capazes de comunicar, pronunciando o mundo e produzindo cultura.

Esse resgate do sentido humano da comunicação é essencial nas discussões sobre mídia na escola. Além de trabalhar a recepção (uma “alfabetização” para a mídia) e a produção de conteúdos midiáticos (protagonismo dos educandos), sustento que programas de comunicação e educação devem focalizar também a comunicação interpessoal e grupal (relações familiares, de grupos de afinidade etc.). Em determinadas circunstâncias, educadores e educandos podem, a partir de uma decisão consensuada pelo diálogo, decidir investir na melhoria da comunicação familiar em uma comunidade em vez de, digamos, criar uma rádio comunitária (por fetiche tecnicista ou por razões circunstanciais, do tipo “nosso projeto recebeu um financiamento para montar uma rádio comunitária, portanto temos de fazê-lo”). Em muitos casos, uma análise de contexto por parte do educador pode revelar que voltar o foco da ação pedagógica para a comunicação interpessoal será mais eficaz do ponto de vista do incremento da criticidade, do potencial transformador da comunidade e para a relação com as mídias massivas: “A qualidade comunicacional das relações que os agentes sociais conseguirem estabelecer entre si, em diferentes situações de vida, será condição essencial para uma boa comunicação com as mídias eletrônicas” (Penteado, 2002).

Nesse contexto, a mediação escolar, inserida dentro de uma perspectiva progressista e democrática, é capaz tanto de ampliar as competências comunicativas do grupo estudado – especialmente no que diz respeito à comunicação interpessoal e grupal – quanto de reduzir a dissociação entre discurso e prática da juventude quanto à comunicação.

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